Entrelinhas
Uma carta de amor
Sou fascinada pelo tempo. A ideia de sentir a jornada através do passar do tempo me encanta e me faz gastar muitas manhãs tentando penetrar nas obras que o acúmulo de minutos, semanas e anos faz com a gente. Nas minhas reflexões sobre o tempo, me deparo com uma constante cheia de entrelinhas.
Como alguém consegue ao mesmo tempo ser tão explícito e se mostrar nas entrelinhas? Você é assim. Chega despercebido, mas a sutileza das suas ações é impossível de não ser vista. Seu anonimato se desfaz nas entrelinhas. Tantas facetas da sua essência se mostram em todas as suas grandes ações, mas são nas pequenas que a sua grandeza se faz viva. É a maneira que você serve o café, está nas mãos ágeis se antecipando ao desejo de um convidado, são as lágrimas teimosas de uma boa lembrança de tempos passados.
Sem perceber, você toca com profundidade as pessoas que cruzam seu caminho por apenas 5 minutos ou por uma vida toda. Se torna um alerta de gratidão para quem já recebeu algo parecido ou inspiração para aqueles cuja falta tem definido quem eles são. E é nesse último lugar que sem notar, você transforma a ausência em esperança. Sua bondade óbvia e despretensiosa dá forma a quem nunca viu o amor em ação. E o torna possível e alcançável. Simples e comum. Sólido e vivo. Suas entrelinhas geram uma delicada reconstrução no íntimo de todos que têm o privilégio de tomar do seu café. E que café bom. Café com gosto de sábado à tarde. É leve, alegre. A torra dos seus grãos não queimou seu café, ela realçou a pureza dos seus sabores. Nenhuma dor te fez mais duro. Você tem esse poder de transformar perdas em ganhos. Você nada contra a corrente, e o cinismo do mundo se dobra diante da luz discreta da sua natureza.
Minha alma inocente e imatura se aconchegou em suas entrelinhas na infância e questionou suas entrelinhas na rebeldia da juventude. Hoje, ela reverencia o seu todo. Como a perfeição nunca foi seu alvo, na verdade nunca foi sua pauta, você se tornou a prova viva de todo conceito de progresso íntimo que tenho meditado tanto nos últimos tempos. Não tem esforço e nem tentativas. Tem apenas o compromisso de ser o que deve ser. E essa simplicidade, que confunde as almas opacas, traz clareza para quem mira a felicidade. E felicidade é poder caminhar com você tão de perto. É te achar, sem precisar te procurar. É sentir o cheiro do café sendo passado e já saber o gosto. É saber que mesmo constatando que meu café nunca terá o gosto do seu, ele tem a mesma torra que desperta meus sabores e gera minhas próprias entrelinhas.
Renata Politano
